quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A lição



Quem não teve vontade de ter aquele jogo da moda, que todo mundo tinha? Super Massa, Master Sisten? É assim que se escreve? Sei lá! E quem quer saber? Já não tenho mais gosto nisso, nem me causa mais desgosto algum não tê-los tido. Nem me lembro porque queria tanto essas coisas, nem me lembro quanto tinhamos ou não tinhamos para meus pais não poderem me dar. O fato é que o que eu precisava tanto aquela época nunca, nunquinha me fez falta. Fazia falta tantas outras coisas e fizeram por uma vida toda, que hoje sei por vivência que com essas faltas buscava preencher parte de um vazio que nunca se completa. Somos todos incompletos e tem que ser assim, somos todos uma busca incessante pelo que nem sabemos o que é. Mas hoje acredito que seja isso que faz todos os dias nos acordarmos. Completar-se, incompletamente todo o tempo. Há quem diga nas religiões que os seres, espiritos, ou seja lá como você chama só é absolutamente pleno em Deus, completos só somos do lado de lá. Nada aqui nessa terra de verdade é tão necessário a não ser pelas precisões básicas de todo ser humano: comer, dormir, e toda a parte fisiológica da coisa, máquina que é o humano. Ontem pensei e repensei sobre isso, vi minha mãe que me ensinou tanto a esse respeito deixar-se confundir, tapear pelo mundo das urgentes necessidades desnescessárias. Ela me ensinou que "All Star" era só um sapato, que "Bicho Comeu" tava na moda, mas ficaria bem mais interessante se eu fizessse, vestisse a minha moda. Na verdade, ela entendia pra caramba de moda e todos os briquendos e sapatos, coisas necessárias, sem necessidade que as crianças queriam ter. Ela sabia tudo deixar ao contrário de hoje, o mundo confuso com o que ela tinha certeza de que eu e meus irmãos não pressisávamos. Pois é! Mas até ela ficou confusa com a modernidade, facilidade de cartões e crediários, prazos que você marca até sem saber se vai ter tempo vivo de pagar. Aí ela confundiu necessidade com o que o dinheiro poderia pagar. Fui praticamente obrigada a chamá-la à sobriedade, fui obrigada a dizer que eu como antes não precisava, não tinha qualquer urgência em ter qualquer coisa diferente, mais atraente do que já tenho. Aquela frase de caminhão diz tudo: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho"  Esse é um grande pensamento, que virou meu modo de vida. Sei de toda a necessidade de alguns pais, Incluo aqui a minha Mãe, de dar aos filhos um pouco mais do que teve, sei também hoje de toda a ânsia que dá nos avós de dar aos netos o dobro disso tudo, por isso falam que vó é mãe com açúcar. A minha é o exesso de tudo isso. Quantas necessidades meus filhos tem aos olhos da minha mãe! Quantas necessidades eles acham que tem como eu também achava na idade deles! Quantas coisas são necessárias de verdade? E eu gritei! É gritei alto isso. Não gostaria, mas ela não ouvia, não entendeu quando eu só a relembrava com carinho que eu estava satisfeita, que era o suficiente que os carinhos e os agrados eram mais caros que qualquer presente, e eu sempre reconheci isso e eu gostaria, queria muito que meus filhos também aprendessem o verdadeiro valor do amor e das necessidades como ela me ensinou. E foi por isso, por tudo isso que hoje sei exatamente quem sou e que não preciso de mais nada, nada a mais que já tenho, foi por isso que gritei. Pedi desculpa. Mas que culpa eu tenho, me fala? Que culpa eu tenho dela se permitir enganar pelo mundo sendo tão diferente? Sendo tão inteligente? Eu sempre a copiei nos seus inumeráveis talentos para driblar esse mundo e não podia admitir, não posso permitir que justo agora, justo quando ela precisa me ajudar a fazer tudo igualzinho para a fórmula com os meus meninos também eu acertar. Não sei se ajudei, não sei se convenci ou só a magoei, não sei ao certo se daqui uns dias, anos ou décadas vou me esquecer de ter gritado. Me lembro sempre de tudo que já a falei, com raiva, euforia ou aos berros, eu não esqueço, eu lamento. Mas diferente de todas as vezes que o fiz por atrevimento, digo: a magoei. Desta vez não! Definitivamente eu só quiz ajudar. O que eu quero dizer com tudo isso, o que eu quero justificar? Não, não quero justificar, nem lamentar. Eu só quis entender porque o mundo faz a gente esquecer do que realmente é necessário. Eu só quero que meus filhos saibam que "Kenner" é só um chinelo de arrastar e que "Ralph Loren" é só mais um perfume. Eu só quero que eles entendam que o que eu não posso dar ou não vou dá-los, porque não acredito que precissem disso ou daquilo para serem completos e felizes, ensino devagarinho com isso que só precisam, só não pode lhes faltar o amor e eles o tem. Tem em mim, no pai, nos avós e em tantas outras queridas pessoas que valem muito mais do que aquilo que podem dar a eles. E foi só isso que minha mãe me ensinou e esqueceu. Foi só isso. Foi tudo, tudo o que eu precisava para ter certeza que o que eu reivindicava ontem aos gritos era exatamente o que ela sempre quis de mim. Ter certeza que minha maior necessidade nessa vida era sempre, sempre foi o amor. Obrigado mamãe e desculpe se aprendi. Obrigada por tudo que não tive, obrigada por tudo tão caro que tenho, que me dá todos os dias, obrigada pelo amor. Mas não! Não! Obrigada, não quero nada mais que isso.


Lia Joca

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